Povo Indígena Guarani Kaiowa – Tekoha Guaiviry – Território Retomado do Povo Kaiowa, MS

Do Guaiviry, Tereza Amarília nos envia suas palavras, como sempre enunciadas de modo cioso e preciso:

“Somos o povo do Coração da Terra. A nós nos foi revelado que essa doença iria chegar. Porque os karaí (os brancos) não querem reconhecer os nossos direitos e devolver a nossa terra.”

Tradução

por Luciana de Oliveira (a quem agradecemos)

“Meu nome é Tereza. É para dizer meu nome Ka’aguy, do mato, Kaiowa original?

Eu me chamo Kuña Jeguaka Rory, Mulher que porta a alegria como enfeite de sua cabeça.

Nós somos os descendentes verdadeiros de grandes entidades espirituais que vivem na terra lá de cima. Por isso nos foi dado viver no Coração da Terra. Somos o povo do Coração da Terra.

A nós nos foi revelado que essa doença iria chegar. Porque os Karaí, os brancos, não querem reconhecer os nossos direitos e devolver a nossa terra. Essa maneira dos brancos agirem conosco, com o nosso jeito de viver, como nossos conhecimentos e com todos os com quem nos relacionamos do lado de lá é que trouxe para eles essa doença terrível. E isso já estava revelado para nós há muito tempo.

O que os brancos fazem atinge os Jara, guardiães das coisas que existem nesse mundo e no mundo de lá também. Por isso eles mandam de volta coisas ruins para alcançarem os brancos. Principalmente aqueles que ajudam a matar os Avá e as Kuñague, homens e mulheres Kaiowa, que sabem lidar com as autoridades do mundo de lá e são seres sagrados também.

Há poucos que nos ajudam. Os que nos ajudam estarão protegidos dessa doença, como a professora Luciana.

Ñanderu, o demiurgo criador de tudo, está do nosso lado e pediu ao Jara Tatat˜i para mandar essa doença para os brancos. Ñamboripara e Tatat˜i.Nosso grande antepassado, guardião das doenças e dos remédios da terra.

Nós que temos os cantos sagrados Ñembo’e, Guahu e Kotyhu estamos protegidos. O perigo é para os brancos. Para nós não nos alcança. Ñande Reko, nosso jeito de viver, é nossa proteção maior. E há outras doenças preparadas para eles, caso não queiram devolver o que é nosso. Nossa terra.

Mas pessoas que estejam em aliança conosco e ao lado das nossas lutas não sofreram. Essas pessoas não precisam ter medo.”

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Desde 2014, quando organizamos a primeira disciplina, piloto, do nosso programa de formação, os Guarani e Kaiowá da retomada do Guaiviry (MS) têm participado como mestres e mestras convidados, nos trazendo notícias da luta pela terra na região, sempre orientada pela escuta aos rezadores.

Naquela ocasião, estiveram na UFMG, o sábio, rezador, Waldomiro Flores, o cacique Genito Gomes e Valmir Gonçalves Cabreira. A partir de um trabalho continuado com a professora Luciana Oliveira, os Guarani e Kaiowá participaram, em 2018, da disciplina Políticas da terra: Tereza Amarília Flores, agricultora, rezadora, cantora, conhecedora dos saberes de seu povo, acompanhada da jovem liderança Johnn Nara Gomes, nos contou sobre os cantos, os rituais, a relação com a terra e a cosmologia guarani e kaiowá.

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